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COMÍDA TÍPICA: Cidade quer servir carne de cachorro

Era a noite anterior ao solstício de verão e as mesas da barraca estavam preparadas para o banquete anual: abóbora no vapor, vegetais cozidos no vapor, purê de pepino e macarrão de arroz. No centro de cada mesa havia dois pratos tradicionais essenciais para as comemorações na cidade: lichia frescas e potes fumegantes de cachorro cozido, temperados com gengibre, alho, cascas secas de laranja, folhas de louro e erva-doce.

Esse último prato tornou Yulin famosa no mundo todo, graças ao festival anual da carne de cachorro, e os habitantes da região já não aguentam mais falar sobre isso.

“Por que todo mundo pega no pé de Yulin?” perguntou Tang Chengfei, um universitário recém-graduado de 24 anos. “Você nunca viu os japoneses comendo sashimi de sapo vivo?”

Na verdade, é a hipocrisia dos críticos que mais irrita os habitantes dessa cidade agitada de sete milhões de habitantes no região de Guangxi, no sul da China.

“Muitas pessoas têm um apego especial com os cachorros”, afirmou Tang. “Mas nós crescemos rodeados de carne de cachorro. Para nós é normal”.

Yulin se tornou alvo de uma intensa campanha em defesa dos direitos dos animais, o que deixou as pessoas da região irritadas e na defensiva.

Liderados por ativistas chineses e de outros países, os defensores dos animais exigem que as autoridades do governo local e o público chinês deem fim ao consumo de carne de cachorro e às práticas terríveis que muitas vezes acompanham o comércio de carne menos regulamentado do país. Acredita-se que mais de 10.000 cachorros sejam servidos durante as comemorações do solstício de verão em Yulin todos os anos.

Celebridades como o ator Ricky Gervais e a modelo Gisele Bündchen fizeram campanha nas mídias sociais com a hashtag #StopYulin2015, ao passo que uma petição online destinada ao governador de Guangxi e ao ministro da agricultura da China reuniu mais de quatro milhões de assinaturas.

Na China, onde o debate em torno do direito dos animais tem mais espaço do que outras causas, as pessoas que se opõem ao festival resolveram se manifestar.

Nas semanas anteriores ao festival, milhões de mensagens condenando essa tradição culinária encheram as mídias sociais chinesas. Protestos e vigílias organizados por defensores dos direitos dos animais foram realizados em todo o país, durante o feriado de três dias que marca as festividades.

Muitos afirmam que a hipocrisia moral em torno do consumo de animais é óbvia. O que dizer a respeito do consumo de carne bovina, uma vez que as vacas são sagradas para os hindus, ou ainda dos porquinhos da Índia na América Latina, dos cães na Coreia o dos perus nos Estados Unidos? O que torna o consumo da carne de cachorro diferente do consumo da carne de frangos ou porcos, eles se perguntam.

“Acho que os ativistas iriam aproveitar melhor o tempo deles se pensassem em questões como a falta de água no mundo ou o sequestro de criancinhas, ao invés de tornar as coisas ainda mais caóticas por aqui”, afirmou Yu Ping, de 48 anos, habitante de Yulin e professor de educação infantil. Yu, como muitas outras pessoas da cidade, insistiu que os cães consumidos em Yulin são criados especialmente com essa finalidade, ao passo que os ativistas dizem que uma grande parcela da carne de cachorro vem de animais de estimação roubados ou de cachorros de rua.

A carne canina não é muito consumida na China, mas é um elemento comum na dieta nacional. Cerca de 10 milhões de cães e quatro milhões de gatos são consumidos na China a cada ano, de acordo com grupos que defendem o direito dos animais.

Certa manhã no Mercado de Dongkou, a principal fonte de carne de cachorro da cidade, uma pilha de jaulas era descarregada de um caminhão. Em uma dessas jaulas, quatro cachorros esperavam para ser retirados e colocados em uma área dentro do abatedouro. Em seguida, um homem abatia os cães com um porrete.

Em uma viela, cinco homens trabalhavam com potes de água fervente e lança-chamas para deixar as carcaças prontas para o preparo da especialidade de Yulin: cachorro à pururuca.

À tarde o Mercado de Dongkou estava aberto. A variedade de alimentos expostos variava de vegetais comuns a cabeças de carneiro por cerca de oito dólares cada, além de civetas vivas, que chegavam a custar 580 dólares por animal. Mais adiante, os açougueiros cortavam as carcaças de pele dourada, enquanto os clientes pediam a carne por cerca de dez dólares o quilo.

Perto dali, ouviu-se um burburinho no mercado aberto. Yang Xiaoyun, uma ativista de 65 anos, havia chegado para mais um dia de negociação com os vendedores de cachorros que queriam tirar proveito de sua disposição em pagar preços altos para salvar cães e gatos da morte.

No dia anterior, Yang, que é proprietária de um abrigo nos arredores de Pequim, gastou mais de 1.600 dólares para salvar cerca de 30 cachorros e 60 gatos. Sua ação foi alvo de críticas de outros ativistas, que acreditam que isso apenas encoraja os comerciantes a trazerem mais cachorros para Yang comprar. Mas para ela, “toda vida é importante”.

Contudo, ela foi obrigada a deixar o mercado depois de ser cercada por transeuntes e comerciantes que ameaçavam torturar os animais a menos que ela os comprasse.

“Nós também adoramos os cachorros”, eles gritavam. “Principalmente quando estão cozidos!”

Contribuiu Huang Yufan / The New York Times

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Aécio Novitski

Idealizador do Site Araucária no Ar, Jornalista (MTB 0009108-PR), Repórter Cinematográfico e Fotógrafico licenciado pelo Sindijor e Fenaj sobre o número 009108 TRT-PR

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